Compulsão

Desde sempre eu me lembro de ser compulsiva. Sempre que comecei alguma coisa e gostei, tornou-se uma compulsão. Não no sentido doentio da palavra, mas as coisas iam se multiplicando de tal forma que em certo momento eu não dava mais conta e por isso era obrigada a parar. Parece uma contradição: fazer tanto uma coisa de que gosta, que ela foge ao controle então eu tenho que parar de fazê-la.

Eu gostava de colecionar (todo compulsivo gosta) e inventei de colecionar postais. Como eu tinha um monte de correspondentes no mundo inteiro, acabou que minha casa foi inundada de cartões postais de todas as partes do mundo e eu já não conseguia mais classificar, nem por ordem alfabética nem por ordem nenhuma. Para dizer a verdade, não tinha nem onde guardar. O mesmo aconteceu com minha coleção de adesivos, a coleção de selos de minha filha Adeline, minha coleção de moedas…

Deixando as coleções de lado, eu que acreditava num casamento feliz “até que a morte ou algo menos trágico – nem por isso menos doloroso – nos separasse” acabei casando 5 vezes… até agora. Possivelmente não haverá outros casamentos porque o atual vai muito bem, obrigada.

Também os filhos vieram acima da média. Num país onde os casais contentam-se com um ou no máximo dois, eu tenho 5. Todos adultos, criados e bem ou mal encaminhados, diga-se de passagem. E com pouca – ou nenhuma – ajuda de seus pais, que são os parceiros das 4 separações que já foram mencionados no parágrafo anterior.

Cada ex-marido casou de novo e teve também seus filhos, de forma que desenhar minha árvore genealógica tornou-se um desafio impossível de realizar. Só se fosse feito no photoshop, em camadas. Ou então com animação: sai uma parte da família, entra outra. Mesmo assim eu duvido que alguém que não fizesse parte dela fosse entender alguma coisa. Acho que chegamos num ponto que ou os sites que preparam árvores genealógicas se adequam à nova família (que tem “ex” pra todo lado) ou eu vou acabar sendo mãe do irmão da minha ex-cunhada, ou qualquer coisa no gênero. O último site que eu tentei usar pra fazer uma árvore decente, depois de alguns meses embaralhando os irmãos das minhas filhas que são e que não são meus filhos; os irmãos dos meus irmãos que não são meus irmãos e outras coisas assim, acabou jogando a toalha e me mandando literalmente baixar em outra freguesia com um aviso de “um erro inesperado nos impede de continuar”. O “erro inesperado” não sei se foi causado pelo próprio programa do site que prepara árvores pra uma família – digamos – tradicional, na qual ninguém tem ex nem futuro, nem meio-irmão, nem enteado, ou se a culpa foi minha por não respeitar aquela lei que não me consultaram quando a criaram – de que casamento é para sempre.

Para sempre por quê, se inventaram o divórcio? E antes mesmo de ele ser inventado, que eu saiba quem estava descontente acabava pegando a trouxa e indo juntar os trapos com outros pretendentes mais interessantes. A culpa não é minha, vai ver eu não sou nem compulsiva nessa área: sou descontente, exigente, inconformada, sei lá. Mas eu não acredito que tenhamos que pagar nossos pecados por aqui.

Zailda Coirano

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